Não tenha empatia e amor só em setembro


Em 2010 perdi minha mãe e foi devastador pra mim e pra nossa família. Quando digo ‘família’ falo do meu pai e meus irmãos, nossa família (diferente de muitas) sempre foi apenas nós seis: meu pai, minha mãe, meus irmãos e eu.

Acho que por ter três irmãos nunca senti falta de conviver com primos. Nunca nos faltou nada, a gente se completava e se bastava. Continuando assim até hoje inclusive, a diferença é o reforço mega importante nela: meu marido. ♥

Quando minha mãe se foi, um pedaço da gente foi junto e nosso mundo ruiu. Na época acreditei ter sido a pessoa mais forte da família, e talvez fui mesmo. Senti que precisava me manter firme pra apoiá-los e fingir que estava tudo bem, tudo sob controle. Acreditava que dessa forma seria menos dolorido pra gente. Lembro que sozinha chorava até soluçar. Meu marido — na época namorado — estava do meu lado em alguns desses momentos e nada falava. E realmente não tem o que dizer, deixar chorar toda nossa dor é o racional.

O luto se transformou numa saudade dolorida que me consumia por dentro, dia após dia.

Depois de um tempo senti ainda mais falta dela. A ‘anestesia’ da perda tinha chegado ao fim.
Minha mãe sempre foi a alegria da casa, era no cheiro gostoso da comida, no rádio ligado enquanto cozinhava e cantava, a leveza na rotina da família. O tempo passou um pouco mais e eu tive de ‘aceitar’ essa ideia absurda de que ela tinha ido embora pra nunca mais voltar. Perder alguém que você ama é uma ferida que nunca cicatriza, não aceitamos nunca. Só quem passa pela mesma dor sabe o que se carrega no coração depois de uma perda gigantesca como essa.

Minha mãe era nova, cheia de vida, cheia de planos. Ela não queria morrer.

Como iria me conformar? Fui apenas vivendo dia após dia. Comemorei as vitórias, enfrentei meus problemas. Perdi amigos, fiz outros novos. Aprendi tantas coisas. Viajei para lugares tão bacanas. Noivei, me casei. Mas sempre me faltava ela, minha parceira pra sentar e contar da vida. Me pegava imaginando quais as reações dela diante dos acontecimentos da minha vida. Quais os conselhos. Ela sempre foi minha melhor amiga e eu a havia perdido pra sempre. Como aceitar?

A mudança maior..

No fim de 2013 me casei e o coração ficou um pouco mais apertado, saí de casa e deixei pra trás a vida com o meu pai e meu irmão. Senti como se estivesse abandonando-os. Viajei legal na maionese. Quando me mudei, voltei a morar na mesma casa em que nasci e cresci — e isso foi tão difícil. Aquela casa era muito a minha família e a década de 90: minha infância, a família toda reunida. Ela é grande, tem alguns cômodos não mobiliados e no início eu olhava com tristeza pra cada canto vazio da casa.

Depois dessa mudança veio uma fase emocional difícil. Eu não estava bem de alguma forma dentro da minha cabeça por conta disso. Me fechei. Não falava sobre o que sentia com ninguém. Ao mesmo tempo me sentia culpada pois minha família era maravilhosa comigo, meu marido super companheiro que me amava pra caramba e que não me deixava faltar nada. Mas não existe explicação quando algumas coisas dão errado e a tristeza, o medo e a ansiedade se espreitam nessas fragilidades.

Nessa época rolou uma sucessão de coisas ruins. Nosso cãozinho Jimmy morreu depois de tanto a gente lutar pela vida dele e de tanto vê-lo sofrer. Um granizo na minha cidade amassou por inteiro o nosso carro novo na época. Em apenas 2 meses, três tios meus faleceram e em seguida fiquei doente no último dia de trabalho antes das minhas férias.

Não aguentei o tranco.

Meu corpo ficou fraco e a cabeça enfraqueceu junto. Depois de uma semana de cama eu não sabia mais ao certo o que era, só a certeza de que nunca havia passado por isso. Corpo fraco, estresse, ansiedade, medo e tristeza.. assim tudo junto, num ponto de não conseguir nem sorrir. Se tinha motivos? Talvez não pra você. Não escolhemos o que sentimos e algumas situações soam diferentes para outras pessoas.

Ninguém acorda e pensa “hoje vou passar o dia triste”, sabe? Até porque sempre fui uma pessoa animada e agitada, palhaçona desde criança. Mas depois de crescer e viver certas perdas e situações, mudamos. Sinto muito lhe dizer isso mas é a verdade. Hoje agradeço por ter sido uma fase estranha — e difícil — que deixei pra trás. Ainda bem que tive ao meu lado essas pessoas que amo e que são tudo pra mim.

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Mas infelizmente nem todos conseguem atravessar situações como essa.
Resultado de que sentir tristeza diariamente e admitir é um tabu na nossa sociedade. Uma pena.

Este post é sobre as inúmeras pessoas que enfrentam fases assim todos os dias. Aquelas que ‘tudo está dando errado e a tendência é piorar’, que se sentem deprimidas além do normal e mantém isso em silêncio por medo de os outros acharem besteira. O que eu quero alertar com essa postagem é que você preste atenção nas pessoas. Dê carinho, um ombro amigo. É de graça e indolor.

Setembro é o mês da prevenção ao suicídio e sabemos que todo pensamento suicida começa com uma depressão. A depressão é uma tristeza insistente que se torna rotina não deixando espaço para mais nada, principalmente para as coisas boas que acontecem. A depressão começa quando nos sentimos fracos e impotentes diante da vida.

Que não seja só em setembro esse alerta, é preciso estar presente para quem você ama todos os dias do ano.
Setembro amarelo é todo dia.

Não ame só em setembro.

Beatriz Aguiar
Sobre mim

Criadora e criatura do Since85. Tem o humor mais oscilante da internet, viciada em café, livros, rock e metal progressivo.

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6 Comentários

Lari Reis
Responder 13/09/2017

"Ninguém acorda e pensa 'hoje vou passar o dia triste', sabe?" - É isso.
Para mim, o seu relato aponta "motivos" bastante plausíveis para a tristeza e um quadro depressivo. Mas a verdade é que a gente não precisa de "motivos" para ser vítima dessa doença.

A única coisa que faz alguém com depressão querer ter "motivo" para estar passando por isso é a falta de compreensão. A cobrança de quem diz justamente que não existe razão para "tanto drama" e coisas assim. Depressão é doença, desde um quadro mais brando até os estágios mais graves. A tristeza está entre os seus sintomas e a gente tem mesmo mania de acreditar que só sente o que tem motivo para sentir, mas não é bem assim...

Por isso, é como eu me habituei a dizer (e até já escrevi sobre também): Setembro amarelo é todo dia.

Priscila Gonçalves
Responder 13/09/2017

QUe lindo o post, deu um nó no peito pensar em vc passando por isso tudo, mas que finalmente passou. Imagino que as vezes ainda bata uma dor, uma saudade, sei bem pois sinto muita falta da minha cachorra, mas sei que a vida segue...
Amei vc dizer que ninguem acorda querendo estar triste. Acho que já passou da hora das pessoas começarem a ter empatia, aceitar mais o outro e ajudar. Infelizmente somos muito cobrados e quase que obrigados a sermos felizes todos os dias, ficar triste é um crime, é pecado, e na maior parte das vezes nao temos motivo para estar assim. Só que depressao é doença, precisa de tratamento, cuidados, compreensao.
Entendo vc, amiga, e saiba que sempre pode mandar um help quando precisar. Saudades de vc, apareça!
Bjs

Robécia
Responder 14/09/2017

Que post! Feliz que você aguentou a barra e passou por isso. Tudo bem não esta tudo bem, acho que é o mais importante pro outro saber, e no seu caso você não sabia disso, foi uma barra hein Bea as pessoas sempre acham que os fortes não sentem, só são fortes mais sentem sim.
E lindo tua atenção para setembro amarelo, você está certissima, preciso nos conectar mais com as pessoas, afeto é grátis <3

Carolina Freitas
Responder 14/09/2017

Queria te dar um abraço Bea. Depoimento lindo e verdadeiro, estou aqui sempre te acompanhando e... pode contar comigo quando quiser conversar!
Beijo nesse coraçããão maravilhoso.

Diva R. Hernández
Responder 14/09/2017

Poxa Bibi, tua historia de superação é muito tocante. Eu me lembro de como tua mãe era uma pessoa doce e cheia de vida, cheia de coisas gostosas no café, sempre sorrindo.

Pode ter a certeza de que ela é uma lembrança muito doce pra mim, tempo bom a nossa infancia não é mesmo? ♥♥♥
No que mais precisar, vem falar comigo. Estarei sempre com ouvidos a postos!!

AMO VOCÊ MINHA AMIGA.

Alana Castro
Responder 14/09/2017

Bia, acho que foi o post que você escreveu e mais me tocou. Já passei por uma situação super difícil e me vi em muitas das suas palavras. Muita força para todas nós sempre e para reforçar o que as meninas disseram, também estou aqui. <33333333 Acho você uma pessoa iluminada, suas escritas já me ajudaram muito e por isso acompanho você sempre.

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