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As várias versões de mim

Tenho mais fases que a lua e sou mais complexa do que um planeta inabitável. Mas essa é uma questão natural pra mim, nunca me incomodou. Deixando claro que tenho versões de mim mesma e não versões da minha essência, esta, nasci e morrerei com a única que sempre possui.

Sou muito bem resolvida com o meu caráter, obrigada. Mas admito que conviver comigo não é tarefa das mais simples, não.

*pausa dramática*

Há um tempo atrás existiam várias ‘Bias’ dentro de mim e isso era tão surreal que me fazia parecer uma doida varrida. Na verdade, ainda existem em número reduzido e caminham de mãos dadas desde o dia em que nasci, não dá pra negar. É como yin-yang. Uma depende da outra pra me dar um pouco de equilíbrio, ou totalmente o contrário.

Muitas vezes essas Bias já gladiaram entre si e quase me deixaram louca. E louca de verdade.

O meu humor sempre oscilou demais. Mas a verdade é que essas ‘Bias’ dentro de mim bagunçavam a minha cabeça e eu realmente não sabia lidar com elas. Nunca dava para saber qual iria dominar o meu dia. Ambas possuíam um gênio indomável e agiam quando, como e onde queriam.

Hoje tô lidando melhor com essas ‘Bias’ que habitam o meu interior. Sem mais cobranças: alegre, ansiosa, serena ou apenas com a tristeza de companhia. Eu sempre tive consciência de que sem a tristeza não teria como saber o verdadeiro significado que tem um sorriso. Cada momento é único. Sobrevivo com elas desde que nasci e sei que não vou morrer por isso. Até acho que sem essa minha loucura de sentimentos não seria eu. As minhas várias versões hoje tem o meu total respeito. Sei que precisei — e preciso — de cada uma para sobreviver.

Projeto Vai um Café

“Sentado no bar, pensa em como as coisas se encaminham para o fim. O fatídico fim. Contornando com os dedos a borda do copo de whisky duplo que havia pedido minutos antes, relembra toda a sua vida. Os amigos que já se foram. O seu grande amor. Como estava linda no dia em que nos casamos, a companheira perfeita de toda uma vida. Também relembra involuntariamente de todos os seus erros e suspira apático no balcão, alheio ao burburinho dos jovens com suas canecas tilintantes cheias de cerveja. Olha para um lado e hesitante, olha para o outro.

Estou velho e acabado mesmo. O único pensamento que lhe vem à mente.

A vida passa diante de seus olhos e o sabor amargo do whisky o faz lembrar do gosto que sua vida tem agora todos os dias. Reflete solitariamente sobre como as coisas podem mudar em um segundo. Em como elas ultimamente mudaram para o pior. E lembra do hospital. Lembra da pele fria. Do momento em que a viu desfalecida, a alma quase que palpável no quarto frio da UTI, esvaindo-se de seu corpo. Suas mãos agora gélidas e com pequenas manchas da idade o mostravam como o tempo é cruel. Ele sempre será cruel de alguma forma, pensa.

Como a vida voa através de cada minuto e pode ser impiedosa com o avanço dos anos.

A mão que tantos afagos lhe deu, estava agora sem vida. O polegar passeia pela mão rígida à espera de uma permuta de carinho, nada mais justo. Mas nenhuma reação. O que sobrou daquele sorriso que tanto lhe trouxe paz? E daquela vida cheia de felicidade e segurança que pareceram durar uma eternidade? É… nada dura para sempre.

Depois de sorver de uma só vez toda a bebida, lança uma nota de valor alto ao homem do bar e levanta-se rapidamente dando as costas para o balcão antes de um ‘obrigado’. Ele não quer ouvir nada. O homem no balcão do bar mais uma vez hesita questioná-lo o porquê de ser tão reservado assim. Mas seus olhos entregam que existe um amor retraído em seu peito e que mais nada pode fazer.

Talvez queira apenas ouvir o som da juventude, áureos de felicidade. Talvez ele só queira um tempo totalmente sozinho. Todo mundo precisa. Talvez só esquecer todos os seus tormentos, talvez não. Quando sai à porta do bar, abre o seu guarda-chuva e parte sozinho em meio ao cinza chuvoso com destino ao lugar mais verde e antes florido na cidade. Quando se aproxima da lápide, larga seu guarda-chuva e ajoelha-se debruçado sobre a grama verde. Com os estampidos dos trovões ao fundo, os pingos da chuva agora molham seus cabelos grisalhos e contornam as rugas de seu rosto longevo.

Seus medos baixaram mas as sombras ainda permanecem.

Com o barulho da chuva recorda-se daquele banho de chuva com sua amada e a saudade o consome mais uma vez. Mas ele sabe que ela ainda o ama e isso basta.

Afinal, nada vai durar para sempre. Nem mesmo a fria chuva de novembro.”

Beatriz Aguiar

* crônica inspirada na música November Rain

Reuni alguns livros pra falar de maneira bem resumida aqui. Como alguns li nas férias ou na época em que o blog estava parado, aquela vontade de uma resenha decente não surgiu.

Porém, foram leituras especiais e preciso falar sobre elas aqui. Indicar para quem ama ler! <3

Enfim, chega de papo furado que a intenção do post é falar sobre alguns dos últimos livros lidos. Cada um segue com uma resenha bem curtinha e uma nota. Bóra lá?

1. Caixa de Pássaros, Josh Malerman

Caixa de Pássaros

Thriller psicológico incrível. É daquele livro que você quer ler tudo de uma só vez. Sério. Achei interessante principalmente a cronologia, a maneira como o livro foi escrito. Temos um capítulo no presente e o próximo é no passado. O enredo é ótimo e conta sobre um mundo pós-apocalíptico em que as pessoas surtam quando ‘algo’ as encontra. Os sobreviventes de uma velha casa abandonada são Malorie e seus dois filhos pequenos, mas eles sabem que está chegando a hora de seguirem seu caminho e sair logo de lá. O livro é mesmo de arrepiar, muito suspense e terror pra quem ler! O que me desapontou foi o final, esperava algo mais surpreendente e até mesmo esclarecedor. Pareceu escrito de qualquer jeito só pra acabar ou o mais provável: o autor quis uma deixa para escrever uma sequência do livro. Em breve sairá uma adaptação nos cinemas, espero que o final do filme seja surpreendente, já que nunca seguem os livros. Né!?

Páginas: 272
Editora: Intrínseca
Nota: 8

2. Meu Apetite por Destruição, Steven Adler

Meu Apetite por Destruição

Narrado pelo próprio baterista, membro original do Guns N’ Roses. Ele conta a história nua e crua desde a infância até o tempo atual, quando decidiu escrever sua história. E o livro promete o que anuncia: sexo, drogas e muito Guns N’ Roses. Os temas preferidos de Adler! Fala sobre o início da banda, primeiros shows, turnês internacionais, tretas, as farras, sobre os outros membros e como acabou sendo chutado da banda em pleno auge. Adler é despretensioso, beirando a infantilidade, não tem como não criar uma empatia pela história do cara. Apesar do grave envolvimento com as drogas, o livro tem muitas passagens engraçadas e fatos curiosos que até então eu desconhecia. E olha que se tratando de Guns N’ Roses, sei de quase tudo! Adler foi o membro mais desapegado de grana, tudo o que ele mais quis foi continuar tocando seu rock n’ roll. Recomendo o livro para todos os fãs da banda!

Páginas: 304
Editora: Edições Ideal
Nota: 10

3. É Tão Fácil e Outras Mentiras, Duff McKagan

É Tão Fácil e Outras Mentiras - Duff McKagan

Surpreendeu. Não bastasse narrar de maneira lúcida toda a trajetória da sua vida dentro e fora do Guns N’ Roses, o baixista Duff McKagan ama literatura e escreve muito bem. O livro começa bem humorado, um Duff-super-paizão no aniversário de 13 anos da filha, onde a menina morre de vergonha dele. A partir disso, Duff analisa sua vida e faz uma viagem no tempo. Conta da vida difícil durante a infância e a mágoa que carregou do pai boa parte da vida. Trabalhos fora da música (incluindo confeitaria onde quase seguiu carreira), bandas em Seattle, sua síndrome do pânico, alcoolismo e o início nas drogas. Como seus dois casamentos anteriores afundaram. Ter visto a morte de perto e tido sua redenção: sobreviver à um colapso e livrar-se do álcool com ajuda da literatura, do ciclismo e das artes marciais. Sóbrio, casou-se e decidiu voltar aos estudos. Fez faculdade. Se tornou pai. Investiu dinheiro em ações da Amazon, Starbucks e Microsoft. Quis tocar com os antigos ex-companheiros de banda e criou o premiado Velvet Revolver. É a minha terceira biografia de um integrante do Guns N’ Roses e afirmo: Duff é de longe o ‘centrado’ dentre todos os caras da formação clássica. Mesmo junkie, ele ainda mantinha os pés no chão. Super recomendo!

Páginas: 368
Editora: Rocco
Nota: 10

4. Quatro Vidas de um Cachorro, W. Bruce Cameron

Livro Quatro Vidas de um Cachorro

Um caso sério de amor! ♥ Para os apaixonados por esses seres cheios de luz é amor na certa. O livro é narrado do ponto de vista do próprio cão, que nasce quatro vezes até compreender o significado da sua existência. O que é lindo de verdade é como as histórias se cruzam, como a relação dele com as pessoas influencia na vida futura dele, o amor, a leveza das histórias. Como são tão sensíveis e inteligentes! Quem nunca quis saber o que o seu cãozinho pensa!? E ele nasce vira-lata, depois como o golden Bailey, em seguida como a pastora alemã Ellie e por último como o Amigão. É emocionante ver o amor que Bailey tem por ‘seu menino’ e o quanto lutou para ficar ao seu lado em outras vidas. É daquele livro que vale cada centavo! Eu dei muita risada mas também chorei, já aviso aos sensíveis de plantão que esse livro é só sentimento. Foi escrito depois de muita pesquisa na área. Uma pena foi o filme decepcionar, principalmente por mudar coisas importantes, incluindo o final. Quanto ao livro, podem ler sem medo que esse livro é genial e apaixonante.

Páginas: 288
Editora: Nova Fronteira
Nota: 10

Últimas leituras 2

E você? Já leu algum desses livros!?

Abraçasso

Charles Bukowski, alemão e filho de soldado americano. Carteiro, motorista, poeta, escritor e pessimista nato.

Há anos atrás li Misto Quente e agora leio o primeiro romance publicado, Cartas na Rua.
Bukowski conseguiu fama máxima na literatura apenas aos 50 anos, quando publicou o seu primeiro livro. Ele fez da sua depreciada vida na sarjeta regada à bebedeiras, palco para romances polêmicos e outros inúmeros poemas sobre o cotidiano. Tornou-se único com seu estilo autobiográfico com a ajuda do seu alter ego, Henry Chinaski.

E inspirou milhares de artistas das mais diferentes esferas a propagar sua arte.

Com uísque, cigarro ou cerveja em mãos, a realidade sem romantismo e a genialidade de não ter papas na língua lhe foram as marcas registradas em toda a sua obra. O velho Buk se mantém único mesmo nos dias atuais, quando uma enxurrada de novos escritores surgem todos os dias. Seus poemas são acompanhados de inconformismo, desejos e raiva, mostrando que apesar de ter vivido bem até os 73 anos, era um coração solitário e um escritor que mantinha os pés firmes no chão.

Separei trechos de alguns poemas desse grandioso poeta louco e beberrão de Los Angeles: Henry Charles Bukowski.

~

“Um bom poema é como uma cerveja gelada
quando você está mais a fim,
Um bom poema pode enquadrar a agonia e
pendurá-la na parede,
Um bom poema pode fazer
você cumprimentar Mozart,
Um bom poema pode quase tudo.”

~

“Se eu nunca ver você de novo
Eu sempre vou levar você
dentro
fora

na ponta dos meus dedos
e nas bordas do meu cérebro

e em centros
centros
do que eu sou do
que restou.”

~

Então queres ser um escritor?

Se tens que estar horas sentado a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre a tua máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.

Se o fazes por dinheiro ou fama,
não o faças.
Se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.
Se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.
Se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.

Quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.

não há outra alternativa.
e nunca houve.”

~

“Em meio ao nevoeiro das noites do sul, vou me aprofundando, escuridão adentro,
contemplando os raios das luzes artificiais que rasgam as gotas de água fria noite afora, não sinto frio,
o frio não faz mais parte dos meus sentidos, o copo que seguro ajuda a esquecer o frio e esquenta minha alma,
já os raios de luz me distraem, brilhantes, provocando um contraste diante do vapor do meu
hálito, ofegante, produzido pelos prazeres que encontrei no mais profundo
confim da noite, esta que seduz e me assusta quando o copo cai de minhas mãos trêmulas.
Por algumas vezes pensei que era o fim, eu estava enganado, quando me dei por conta o sol raiou,
as luzes artificiais apagaram, a noite passou e mais um dia começou.”

~

“amor é uma luz à
noite atravessando o nevoeiro
amor é o que você acha que a outra
pessoa destruiu
amor é tudo que nós dissemos
que não era
e amor é uma palavra usada muitas vezes e
muitas vezes
cedo demais.”

Bukowski

Com Linda Lee, Star Wars e Heineken!

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“Se queixar sobre velhas feridas é
um estúpido desperdício do coração.”
— Charles Bukowski

Abraçasso

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