Nada dura para sempre


“Sentado no bar, pensa em como as coisas se encaminham para o fim. O fatídico fim. Contornando com os dedos a borda do copo de whisky duplo que havia pedido minutos antes, relembra toda a sua vida. Os amigos que já se foram. O seu grande amor. Como estava linda no dia em que nos casamos, a companheira perfeita de toda uma vida. Também relembra involuntariamente de todos os seus erros e suspira apático no balcão, alheio ao burburinho dos jovens com suas canecas tilintantes cheias de cerveja. Olha para um lado e hesitante, olha para o outro.

Estou velho e acabado mesmo. O único pensamento que lhe vem à mente.

A vida passa diante de seus olhos e o sabor amargo do whisky o faz lembrar do gosto que sua vida tem agora todos os dias. Reflete solitariamente sobre como as coisas podem mudar em um segundo. Em como elas ultimamente mudaram para o pior. E lembra do hospital. Lembra da pele fria. Do momento em que a viu desfalecida, a alma quase que palpável no quarto frio da UTI, esvaindo-se de seu corpo. Suas mãos agora gélidas e com pequenas manchas da idade o mostravam como o tempo é cruel. Ele sempre será cruel de alguma forma, pensa.

Como a vida voa através de cada minuto e pode ser impiedosa com o avanço dos anos.

A mão que tantos afagos lhe deu, estava agora sem vida. O polegar passeia pela mão rígida à espera de uma permuta de carinho, nada mais justo. Mas nenhuma reação. O que sobrou daquele sorriso que tanto lhe trouxe paz? E daquela vida cheia de felicidade e segurança que pareceram durar uma eternidade? É… nada dura para sempre.

Depois de sorver de uma só vez toda a bebida, lança uma nota de valor alto ao homem do bar e levanta-se rapidamente dando as costas para o balcão antes de um ‘obrigado’. Ele não quer ouvir nada. O homem no balcão do bar mais uma vez hesita questioná-lo o porquê de ser tão reservado assim. Mas seus olhos entregam que existe um amor retraído em seu peito e que mais nada pode fazer.

Talvez queira apenas ouvir o som da juventude, áureos de felicidade. Talvez ele só queira um tempo totalmente sozinho. Todo mundo precisa. Talvez só esquecer todos os seus tormentos, talvez não. Quando sai à porta do bar, abre o seu guarda-chuva e parte sozinho em meio ao cinza chuvoso com destino ao lugar mais verde e antes florido na cidade. Quando se aproxima da lápide, larga seu guarda-chuva e ajoelha-se debruçado sobre a grama verde. Com os estampidos dos trovões ao fundo, os pingos da chuva agora molham seus cabelos grisalhos e contornam as rugas de seu rosto longevo.

Seus medos baixaram mas as sombras ainda permanecem.

Com o barulho da chuva recorda-se daquele banho de chuva com sua amada e a saudade o consome mais uma vez. Mas ele sabe que ela ainda o ama e isso basta.

Afinal, nada vai durar para sempre. Nem mesmo a fria chuva de novembro.”

Beatriz Aguiar

* crônica inspirada na música November Rain

Beatriz Aguiar
Sobre mim

Criadora e criatura do Since85. Tem o humor mais oscilante da internet, viciada em café, livros, rock e metal progressivo.

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12 Comentários

femariaotoni
Responder 13/03/2017

Nossa que texto em Bea,
Muito bom, triste e bonito ao mesmo tempo e nos faz refletir bastante mesmo, como o tempo é curto, como ele se vai rápido e nem percebemos.
Muito bom, adorei.
Bjs

    Beatriz Aguiar
    Responder 13/03/2017

    Fêr, sua linda. Que bom que tu sentiu a essência principal do texto. ♥

    Beijóca e boa semana!

Rafaela Volpiani
Responder 13/03/2017

Tô arrepiada aqui com a crônica!! E tem tanta gente passando por isso...
É triste mas é lindo. Que texto, Bea!!

    Beatriz Aguiar
    Responder 13/03/2017

    É o destino de todos nós, isso se envelhecermos. Acho que por isso é tão triste, ou sentem saudade da gente ou é a gente quem sente saudade.

    Obrigada e um beijo!

simone
Responder 13/03/2017

Lindo e melancólico. Lembrei um pouco do meu pai, ele reclama da velhice, lembra da juventude e sorri. A parte mais difícil é quando ele pergunta de entes queridos e eu tenho que recorda-lo que já se foram, ele abaixa a cabeça levemente como quem sente falta e depois olha pro alto perguntando a Deus porque ele ainda está aqui. Dói tanto, mas é a vida.

    Beatriz Aguiar
    Responder 13/03/2017

    Era mais ou menos onde eu queria chegar, é louvável mas é muito triste também.
    Dói muito mesmo, né? Meu pai está sozinho desde 2010. Ele é novo, tem só 63 anos mas não quer saber de outra pessoa que não seja minha mãe. O problema é que ela nunca mais vai voltar. :~~~
    Dói muito vê-lo sozinho sendo tão novo, dizendo que a vida dele já passou.
    Mas é a escolha dele. Nada posso fazer que não seja respeitar ;((
    O importante é darmos amor pra eles. ♥

    Beijão, Si.

Ana Toscano
Responder 15/03/2017

Que lindo Bea, emocionante. Sem contar que amo NR <333333333333
Não to sabendo lidar com o seu texto!!

Diva R. Hernández
Responder 15/03/2017

Acho que nunca li nada igual Bibi... tão triste mas tão emocionante e verdadeiro. Tu nunca decepciona!! Bjo grande minha ídola!! =*******

Líley Carla
Responder 27/03/2017

Bia, que crônica linda! É fictícia, mas tão real. É linda e é triste, talvez por nos fazer lembrar da finitude da vida. E não pude deixar de me emocionar ao ler teu comentário pra Simone. Não sei bem o que falar, na verdade, palavras nunca são suficientes nessas situações, mas desejo, do fundo do coração, que seu pai encontre conforto nas lembranças felizes e que o vazio que sua mãe deixou, possa ser preenchido pelo amor de vocês, filhos, frutos desse amor.

Um abraço apertado! ♥

    Beatriz Aguiar
    Responder 04/05/2017

    Linda. ♥ Obrigada pelo carinho e força de sempre!
    Engraçado como pessoas tão distantes fisicamente são tão próximas de nós.
    Te tenho muito carinho!

    Um beijo enorme, Lí. Saudades de te acompanhar *-*

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